Trabalhista
Marítimo com salário atrasado ou tripulação abandonada no Porto de Santos: o que fazer
Navio parado em Santos com salários atrasados ou tripulação sem repatriação? Veja os direitos garantidos pela convenção internacional, a garantia financeira contra abandono e as medidas judiciais possíveis.
- Publicado
- Autor
- Meireles Advocacia
- Leitura
- 5 minutos
- Tópicos
- 13
Neste artigo (13 tópicos)
De tempos em tempos, um navio fica parado no Porto de Santos ou em fundeio na barra com a tripulação a bordo, salários atrasados e sem previsão de repatriação. Isso acontece quando o armador enfrenta dificuldades financeiras ou disputas com credores. Para os tripulantes, brasileiros ou estrangeiros, a situação é urgente: falta salário, às vezes falta comida e combustível, e não há como voltar para casa.
O que é abandono de tripulação
A Convenção sobre Trabalho Marítimo, ratificada pelo Brasil, considera que há abandono quando o armador deixa de custear a repatriação, deixa os tripulantes sem o sustento e o apoio necessários ou rompe unilateralmente seus vínculos com eles, incluindo a falta de pagamento de salários por pelo menos dois meses.
A garantia financeira obrigatória
A convenção exige que os navios tenham uma garantia financeira, normalmente um seguro, para cobrir o abandono. Essa garantia deve assegurar o pagamento de salários atrasados, em regra limitado a quatro meses, as despesas de repatriação e as necessidades essenciais, como alimentação, água, combustível e assistência médica. O certificado dessa garantia deve estar a bordo.
Os salários como crédito privilegiado
Na legislação brasileira, os salários da tripulação estão entre os créditos privilegiados sobre o navio. Isso significa que eles têm preferência sobre muitos outros credores e podem fundamentar medidas judiciais contra o próprio navio, como seu arresto, para garantir o pagamento.
Medidas possíveis
- Acionar a garantia financeira contra abandono, por meio do certificado a bordo.
- Comunicar a situação às autoridades marítimas e trabalhistas e à representação consular, no caso de estrangeiros.
- Buscar o apoio do sindicato dos marítimos e de entidades de assistência aos trabalhadores do mar.
- Propor medida judicial urgente, inclusive o arresto do navio, para assegurar o pagamento dos salários.
O tempo é decisivo
Navios podem ser vendidos, retirados do porto ou disputados por outros credores. Quanto antes os tripulantes reúnem documentos e buscam orientação, maiores as chances de assegurar os créditos enquanto o navio ainda está em Santos.
Documentos importantes
- Contrato de engajamento ou de trabalho marítimo.
- Comprovantes dos últimos salários recebidos e extratos.
- Lista da tripulação e documentos de identificação marítima.
- Fotografia do certificado de garantia financeira a bordo.
- Mensagens e comunicações com o armador, o comandante e o agente marítimo.
O papel das autoridades e entidades no porto
Em situações de abandono, diferentes instituições podem ajudar. A autoridade marítima atua na segurança da embarcação e da tripulação. Os órgãos de fiscalização do trabalho podem verificar as condições a bordo. Consulados prestam apoio aos tripulantes estrangeiros. Sindicatos e entidades de assistência aos marítimos costumam oferecer suporte prático, como alimentação, comunicação e orientação inicial.
A atuação dessas instituições não substitui as medidas judiciais para garantir os créditos, mas pode ser decisiva para preservar a segurança e a dignidade da tripulação enquanto a situação é resolvida.
A situação das famílias
Enquanto a tripulação permanece a bordo, as famílias, no Brasil ou no exterior, deixam de receber o sustento. Por isso, além de garantir os salários atrasados, é importante buscar a continuidade dos pagamentos e a repatriação o quanto antes. A garantia financeira prevista na convenção internacional foi pensada exatamente para essas situações, e acioná-la cedo reduz o tempo de espera.
Como a tripulação pode se organizar
Em casos de abandono, a atuação conjunta da tripulação costuma ser mais eficiente. Reunir os contratos, os comprovantes e as procurações de todos os interessados permite que as medidas urgentes sejam propostas de uma vez, com uma visão completa dos créditos. Também facilita a comunicação com as autoridades, com a seguradora da garantia financeira e com o armador, evitando informações desencontradas.
Perguntas frequentes
Tripulantes estrangeiros podem acionar a Justiça brasileira?
Em situações envolvendo navio em porto brasileiro, medidas urgentes podem ser buscadas no Brasil. A análise considera a natureza do crédito e as circunstâncias do caso.
Posso desembarcar e voltar para casa?
A repatriação é direito do tripulante e obrigação do armador. Em caso de abandono, a garantia financeira deve custeá-la.
E se o navio for vendido?
Créditos privilegiados como os salários acompanham o navio, mas a efetividade da cobrança depende de medidas rápidas.
O comandante também tem direito aos salários atrasados?
Sim. Os salários do comandante e da tripulação estão entre os créditos privilegiados sobre o navio.
Quanto tempo leva para receber?
Depende da garantia financeira disponível, da situação do armador e das medidas judiciais adotadas. Agir cedo costuma encurtar esse tempo.
Preciso estar a bordo para pedir o arresto?
Não necessariamente. O que importa é que o navio esteja no porto ou em águas brasileiras e que os créditos estejam documentados. Tripulantes já repatriados também podem ser representados por procuração. Ainda assim, quanto antes os documentos forem reunidos, melhor, porque a permanência do navio no porto é incerta.
Conclusão
O abandono de tripulação tem resposta no direito internacional e na legislação brasileira: garantia financeira obrigatória, privilégio dos salários e medidas urgentes sobre o navio. Em todos os casos, agir enquanto o navio está no porto é o que mais aumenta as chances de recebimento.
